Pe. Vitório Cipriani: A vida espiritual deve orientar, mas não matar a vida natural.

Comentário do décimo segundo domingo comum – 21/06/20

Jr. 20,10-13
O capítulo começa com um anúncio da invasão dos babilônios (587/6 A.C) – a razão política dessa invasão é a quebra de juramento feito por Judá ao império; a razão teológica é, claro, infidelidade a Deus. (Ver 2Crônicas 36,14ss).
Os vv.7ss. são importantes: o profeta se diz seduzido por Deus – mas essa sedução se torna razão de escárnio e zombaria da parte das autoridades… porque a sedução leva o teólogo a uma análise das circunstâncias e a falar e, o que ele fala, não é nada agradável = o velho conflito entre a verdade e os interesses particulares e de grupos de poder.

Vv. 10ss. “Eu ouvi a calúnia de muitos: “Terror de todos os lados! Denunciai! Denunciemo-lo!” Todo aquele que estava em paz comigo aguarda a minha queda: “Talvez ele se deixe seduzir! Nós o dominaremos e nos vingaremos dele!”
Vv. 11ss. “Mas Iahweh está comigo como um poderoso guerreiro; por isso os meus perseguidores tropeçarão, eles não prevalecerão. Eles se envergonharão profundamente, porque não tiveram êxito; uma vergonha eterna, inesquecível”.
O teólogo reafirma sua confiança na fidelidade de Deus: fator fundamental da própria Teologia…
12 Iahweh dos Exércitos, que perscrutas os justos, que vês rins e coração, eu verei a tua vingança contra eles, porque a ti eu expus a minha causa…”
A ‘vingança divina’ será a invasão, tomada de Jerusalém, destruição do Templo, e o Exílio, que vai durar cerca de 50 anos: 587/6 até 539 A.C.
V. 13 “Cantai a Iahweh, louvai a Iahweh, porque ele livrou a vida do pobre da mão dos perversos”.
Entretanto, se lerem a sequência do cp. 20,14 até o fim, verão um dos textos mais chocantes de toda a Escritura… quem escreveu isso devia se encontrar em circunstâncias terríveis.

Rm 5,12-15
Continua a reflexão sobre o ‘Velho Adão’ que, em função da má escolha que fez, introduziu ‘o pecado no mundo’
– o que explica essa conclusão do autor é o fato seguinte: ao se ler a Escritura na tradução grega, a LXX, o nome próprio ‘Adão’ é empregado em sentido personalizado, ao passo que o termo ‘antropos’ – isto é – ‘homem’, é empregado em sentido genérico – fato que levou o autor de nosso texto a concluir, em sentido pessoal, identificado, a desobediência, e suas consequências.
O ‘Velho Adão’, seguindo esse raciocínio, escolheu mal – comeu – e seguiu a inclinação natural, representada pela serpente;
O ‘Novo Adão’, ao optar por ouvir a voz divina, isto é, a inclinação espiritual – não comeu;

  • o que de fato devemos perceber, sacar dessas reflexões, e que pode ser encontrado pela Escritura afora e no Novo Testamento, é como deve funcionar essa relação entre a ‘inclinação natural’ e a ‘inclinação espiritual’ : uma não deve, nunca, eliminar a outra: é a primeira atitude sensata; mas uma, a ‘natural’, deve estar sujeita à ‘espiritual’, pois é a única maneira de realmente ‘salvar’ o ser humano, seja individual, mas acima de tudo social.
    E para nós, cristãos, essa relação está representada, indicada pela ‘graça de Deus’ e por seu ‘dom gratuito’ na morte, o domínio que ‘espiritual’ deve estabelecer sobre o ‘natural’ e a ‘ressurreição’ de Jesus, a ‘vida nova’, equilibrada que segue como consequência.

Mt 10,26-33
A primeira parte da leitura faz lembrar, claramente, o texto de Jeremias, acima.

  • 26 ‘Não tenhais medo’… 28 ‘Não temais…’ os que matam o corpo, mas não podem matar a alma…’, matam ‘o corpo’, a ‘vida natural’ mas ‘não podem matar o espírito’…
  • mas também devemos ‘temer’ aqueles que ‘em nome da vida espiritual’ pregam a ‘morte da vida natural’.
    Não tenho dúvida de que o ‘Pai nos Céus’ bate palmas e dança de alegria quando vê a ‘a vida espiritual’ orientando ‘a vida natural’ de maneira saudável.

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