Vós mesmos fostes estrangeiros . . .

Por Pe. Vitório Cipriani, NDS.

30º Domingo Tempo Comum

Ex. 22,20-26

20 Não afligirás o estrangeiro nem o oprimido, pois vós mesmos fostes estrangeiros no país do Egito. 21 Não afligireis a nenhuma viúva ou órfão.

Estrangeiro, oprimido, viúva, órfão… por serem categorias inteiramente desprotegidas, os teólogos as colocam sob a proteção divina… Jt. 9,11: “mas tu és o Deus dos humildes, o socorro dos oprimidos, o protetor dos fracos, o abrigo dos abandonados, o salvador dos desesperados…”. Se Deus interferisse fisicamente na história, não teríamos mais nenhuma dessas e outras misérias… e os fundamentalistas dirão ‘Ele não faz porque são todos pecadores… que se convertam… então…

Pois ‘fostes estrangeiros’… aspecto fundamental do memorial… , levamos muito tempo para descobrir que quando proclamamos esses atributos em Deus os implicados somos nós. Nosso é o ato de fé, nossa é sua execução, não de Deus.

  • 22 Se o afligires e ele clamar a mim escutarei o seu clamor; 23 minha ira se acenderá e vos farei perecer pela espada:

A ameaça de castigo não é boa pedagogia catequética… só cria escravos.

vossas mulheres ficarão viúvas e vossos filhos, órfãos.

A ideia é antiga… os homens podem morrer nas guerras, etc… evidentemente, as mulheres, filhos e orfãos, Não!!!

24 Se emprestares dinheiro a um compatriota, ao indigente que está em teu meio, não agirás com ele como credor que impõe juros.

A ideia é interessante… mas, viável? No último século antes de nossa era, o grande Hillel (muita info na inter) criou uma norma chamada Prosbol – com a aproximação do ano sabático, que abolia as dívidas, a escravidão, etc., as pessoas se negavam a emprestar… a norma de Hillel estabelece não o perdão da dívida mas sim sua suspensão… findo o ano sabática a dívida volta a valer.

25 Se tomares o manto do teu próximo em penhor, tu lho restituirás antes do pôr-do-sol. 26 Porque é com ele que se cobre, é a veste do seu corpo: em que se deitaria? Se clamar a mim, eu o ouvirei, porque sou compassivo.

Problemas humanos gerados pelo ser humano… mas é fantástica a evolução desse humano que aprendeu a ser próximo, solidário e compassivo.

Se essas, e numerosas outras leis, foram criadas é porque esses comportamentos negativos, ruins existiam… Não haveria leis se determinados comportamentos humanos não viessem a ser considerados inaceitáveis… é uma tremenda evolução do ser humano… o começo de uma antropologia saudável… da liberdade.

‘Israel saiu do Egito, mas levou faraó (note-se que na travessia do mar todos os egípcios morrem, exceto o faraó – isto é, a inclinação à opressão – vide Ex. 2,11ss. – consigo… Nós cristãos…?

Sl 17(1 8),2-4.47.s1ab (R/. 2)

1Ts. 1,5c-10

5 — porque o nosso evangelho vos foi pregado não somente com palavras, mas com grande eficácia no Espírito Santo e com toda a convicção. Assim, sabeis como temos andado no meio de vós para o vosso bem. 6 Vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar das numerosas tribulações; 7 de sorte que vos tornastes modelo para todos os fiéis da Macedônia e da Acaia. 8 Porque, partindo de vós, se divulgou a Palavra do Senhor, não apenas pela Macedônia e Acaia, mas propagou-se por toda parte a fé que tendes em Deus. Não é necessário falarmos disso, 9 pois eles mesmos contam qual acolhimento que da vossa parte tivemos, e como vos convertestes dos ídolos a Deus, para servirdes ao Deus vivo e verdadeiro, 10 e esperardes dos céus a seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos: Jesus que nos livra da ira futura.

‘esperardes…’: trata-se da Segunda Vinda quando, então, todas as esperanças messiânicas se realizarão – essa perspectiva é, na verdade, judaica: o Messias transformará a realidade, o mundo – seria essa a esperança messiãnica cristã? Ou a transformação do ser humano que, por sua vez, transformará o mundo?

Mt. 22,34-40 – Mc.12,28-31; Lc.10,25-28

  • 34 Os fariseus, ouvindo que ele fechara a boca dos saduceus,

A passagem anterior, aqui referida, é aquela na qual o autor desenvolve um debate entre Jesus, fazendo o papel dos fariseus, para quem a fé na ressurreição é fundamental e os saduceus, pequeno grupo de elite, que rejeitava essa e outras crenças da Sinagoga.

reuniram-se em grupo 35 e um deles — a fim de pô-lo à prova —. perguntou-lhe:

situação que os autores suscitam constantemente; na verdade, o que está sendo posto à prova não é Jesus, e sim a fé cristã em Jesus, Cristo morto e ressuscitado.

  • 36 “Mestre, qual é o grande mandamento da Lei?”

O papel da Sinagoga se tornara tão grande e importante – a maioria absoluta dos judeus seguia o culto e as instruções dos Sábios Rabinos Fariseu – a ponto de os sacertotes – lembremos que o sacerdócio era hereditário – a maioria deles vivia em diferentes áreas geográficas, e não em Jerusalém – subiam ao Templo em turnos organizados, para uma semana de serviço, de Sábado a Sábado, e regressavam em seguida para suas cidades e povoados, onde a única instituição religiosa era a Sinagoga, que frequentavam – sua única função, quando presentes, nesse culto sinagogal era dar a bênção sacerdotal = Nm. 6,24-25; 26 – foram esses sacerdotes que instituíram uma sinagoga num departamento do Templo onde recitavam as mesmas bênçãos já estabelecidas como regulares para todos os Judeus que seguiam a Sinagaga.

Mas sua oração se distinguia da oração geral da Sinagoga num aspecto: eles recitavam o Decálogo de Ex. 20.

Elementos cristãos que defendiam a superação do Judaísmo e de sua Escritura se focaram nessa prática sacerdotal de recitar o Decálogo no Templo e passaram a defender que a única passagem da Escritura que permanecia válida para a Comunidade Cristã era o Decálogo.

Diante disso, notáveis da Sinagoga decidiram proibir a recitação do Decálogo e estabeleceram a passagem do Deuteronômio cp. 6,4-9 como expressão fundamental da fé judaica. Esse é o pano fundo… vale notar que Mateus, Marcos e Lucas assumem essa decisão.

  • 37 Ele respondeu: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma

Note-se que o autor cristão não cita o v. 4 : “Ouve Israel o Senhor nosso Deus o Senhor é Um”, nem a fórmula “de toda a tua força” da formulação do Deuteronômio, mas acrescenta, na sequência, ‘de todo o entendimento’.

O que entender de ‘todo o coração, de toda a alma’?

Mishnah Berahôt (a Mishnah é o código do direito judaico – Berahôt: tratado das bênçãos) 9,5: ‘Deve-se abençoar (Deus) pelo mal da mesma forma que se o abençoa pelo bem, como diz (a Escritura – Dt. 6,4-9) “E amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças”.

“Com todo o teu coração”, com seus dois impulsos, o impulso mau assim como o impulso bom. “Com toda a tua alma”, (isto é, a vida) embora Ele a peça. “Com todas as tuas forças”, com todos os teus bens”.

Porque somente assim, nessa integração entre o bem e o mal, o ser humano avança na construção de sua integridade e, ao mesmo tempo, proclama a unidade de Deus.

  • o coração é tido como a sede do bem e do mal: não é o órgão, evidentemente, mas sim o que acontece com ele quando se vive seja uma boa seja uma má experiência = adrenalina – daí a atribuição.

e de todo o entendimento.

Isto é, à luz das interpretações (Midrash) que a Tradição, e os teus esforços, legitimamente descobrem.

  • 38 Esse é o grande e o primeiro mandamento.
  • 39 O segundo é semelhante a esse: Amarás a teu próximo como a ti mesmo. (Lv. 19,18).

Note alguns dados interessantes:

Dt. 6,5 (hb.) “E amarás o Senhor teu Deus…

Lv. 19,18 (hb) “E amarás o teu próximo…”, são os dois únicos mandamentos com a mesma formulação inicial… se, por um lado, a teologia concluiu que não é possível haver ‘amor a Deus’ sem ‘amor ao próximo’, e vice-versa, por outro, exegeticamente, a mesma formulação levou a Tradição a associá-los.

Próximo ? Por tudo o que é conhecido, esse conceito ainda significava, como reza Lv. 19,18, Ex. 2, ‘o filho do teu povo’. A teologia evoluiu e a expressão maior dessa evolução encontra-se em Lc. 10, o texto do ‘samaritano’.

  • 40 Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”.

A terceira parte da Escritura hebraica não é mencionada porque à época ainda não se chegara a uma decisão sobre quais livros fariam parte, ainda que todos eles já existissem e fossem usados.

Resumir a ‘Escritura’ é uma atividade tanto teológica quanto pedagógica na Tradição sinagogal como no Novo Testamento, seu herdeiro… ex.: Rm. 13,8-10.

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